A Mulher do Senhor Lutz

Magazine Contos A Mulher do Senhor Lutz

Publicado originalmente em abril de 2024.

Por Valter Hugo Mãe.

O senhor da casa ao lado ficou subitamente velho. Julgo que lhe deu num fim de inverno, talvez cansado da chuva, do frio, da espera. Uma manhã, sem previsão, veio ao jardim e caminhou lento e nostálgico, talvez com dores nas costas, nas pernas, nos próprios olhos. Era por ali devagar, a ver as coisas como a
despedir-se, e eu imediatamente o percebi mais longe. Parecia-me mais longe. Disse-lhe: bom dia, senhor Lutz, bom dia. E ele nem me respondeu logo. Precisou de ganhar consciência, talvez tenha precisado de chegar mais perto para me aceitar no território mais silente e vago da sua vida.

Uns dias mais tarde, nesse tempo melhor da primavera, ainda muito fresco mas com as chuvas a parar, o
senhor Lutz passou a sentar-se por uns minutos junto à porta, a espiar o jardim e os poucos carros
passando. Ainda julguei que esperasse a visita de alguém. Poderia estar ansioso, querer garantir que
recebe a pessoa, sem demorar e cheio de alegria. Mas ninguém vinha. Era apenas ele olhando, igualmente atento e estranho. Sem resultado.

Então, o senhor Lutz bateu na minha porta e perguntou se eu sabia da sua mulher. Não chegara ainda, e ela nunca perdia um dia de sol. Ele dizia: a minha mulher nunca perde um dia de sol. Estou preocupado. E eu respondi: senhor Lutz, vamos tomar um chá quente e esperar um pouco. Deixamos a porta aberta, se ela vier saberá que estamos aqui. E o homem entrou e alegrou-se com o chá, explicando que agora lhe doíam as costas, as pernas e os próprios olhos. E eu sorria. Ele não sabia muito bem como falar da velhice porque lhe soava a uma companhia nova. Explicava que lhe tinha caído o coração um palmo dentro do peito. Batia mais abaixo, como os peitos das mulheres que vão descendo ao umbigo. Rimo-nos. Depois, dizia: a minha mulher, não, ela é muito bonita, teve sempre a graça de ser bonita.

A mulher do senhor Lutz havia morrido ainda jovem. Eu mesmo não a conhecera. Escutara as suas histórias, que cantava de janelas abertas igual a um rouxinol. As pessoas mais antigas da rua juravam que ela era tão gentil que até os gatos a vinham ver e adorar. O senhor Lutz confirmava: os bichos ficavam pelos muros a vê-la passar, e miavam, queriam a sua atenção. Era uma mulher que sabia segredos. Ela sabia do que não se vê nem se diz.

Começámos a tomar chá todos os dias, quando me vinha perguntar se vira a sua mulher, e eu mais uma vez o encontrava a debater-se com o medo, tão aflito por não saber do grande amor da sua vida e temer ficar sozinho para sempre. Eu jamais poderia informá-lo de que a sua solidão tinha anos. Todos os dias, em algum instante, o senhor Lutz haveria de aprender que a sua mulher morrera. E ela morreria de novo.

Outra vez. E ele começaria de novo essa solidão para sempre, insanável, severa.
Seria talvez setembro quando o senhor Lutz me veio avisar, correndo, que não poderia entrar para um chá. A sua mulher estava a chegar e não podia demorar-se. Era tão alegre que nem conseguia articular por completo. Dizia meias frases, meias palavras, respirava por metade de um pulmão, subira-se o coração peito acima, mais de um palmo, até junto à boca, só sabia sobre o amor, sobre a saudade, a saudade fazia agora muita alegria. E eu não soube o que responder. Fiquei angustiado. Julguei que em instantes lhe morreria de novo a mulher. Em instantes, talvez depois de ter aguardado um tempo a ver os poucos carros passando, o senhor Lutz aprenderia outra vez sobre sua solidão e eu haveria de ver seu modo derrotado, seu medo, o desamparo sempre de menino.
Ainda tentei que entrasse de qualquer maneira. Tinha o chá quente à espera, o pão torrando que perfumava a casa dessa impressão de conforto e boa fome. Mas o senhor Lutz era à pressa. Vinha agora mesmo a sua mulher, ele acreditava, e ela haveria de o encontrar preparado, garboso, tão feliz por voltar a vê-la.

Julgava ele que se perderam por dois dias, certamente apenas uma noite. Que disparate. Afirmava. Uma
noite de separação porque alguma urgência surgira. Mas era manhã, ainda verão, e os pássaros que partiam voavam todos por nosso bairro para se despedirem. Coloriam e buliam o céu. Eram criaturas soltas distribuídas ao acaso do mundo. O senhor Lutz sentia que aquele era um dia de liberdade.
Sentou-se à porta da sua casa e espiou, como tantas vezes fizera meses antes. A ansiedade redobrava-lhe as cores e trazia-lhe um movimento imparável. Na sua lentidão ainda recente, nem as dores nas costas, nas pernas ou nos próprios olhos haveriam de impedir–lhe de espiar tudo ao mesmo tempo. Para cima e baixo da rua, para cima e baixo da oliveira e do ulmeiro. O homem aceitaria que a sua mulher caminhasse passeio fora ou saltasse de um ramo abaixo. De algum lugar viria. A sua bela mulher, com tanta saudade e alegria.

Não pude afastar-me. Quis estar ali quando o seu rosto tombasse à solidão. Quando voltasse à idade
inteira, sem ninguém, sem mais ninguém. Então, como vindo também entre os pássaros que passavam rente aos telhados, uma mulher muito bela sorriu jardim adentro. Era claríssima, diurna, leve. O senhor Lutz, levantado, tão feliz, recebeu-a nos braços, beijou-lhe a face, entrou. Entraram. O senhor Lutz e a
senhora tão bela entraram sem mais se largarem. As mãos dadas num carinho que eu, com tanta vida e tantos filmes, tantos livros e tanta imaginação, nunca vira igual. Mais do que incrédulo, fiquei também feliz. Eu fiquei também muito, muito feliz.