Comum: a fanzine da Arquivo

Magazine Editorial Comum: a fanzine da Arquivo
José Ribeiro Vieira, fundador da Arquivo

Isto já diz tudo, não é?

Como sentimos coisas de forma semelhante, juntámo-nos – a Arquivo e o Café Central. 

A palavra Comum é deles e eu acho-a a melhor palavra para esta fanzine. Sem o Comum não há futuro. 

Pediram-me para escrever o Editorial desta edição e para eu o escrever com o coração. Coisa que demonstra uma grande coragem e irreverência. Estão saudáveis, portanto. 

Porque existe a Arquivo? 

A Arquivo só existe porque foi um sonho que o meu pai, teimosamente, quis manter. A Arquivo tem 45 anos, mas a Arquivo de agora tem 23. É nesta que eu apareço. Na outra, esteve a minha mãe e eu existia como espectadora. 

As livrarias são “um luxo”. Mas o meu pai preferiu ter empresas que gostava muito, mas que não davam grande lucro, a ter só as outras. Muita gente acha isso uma tontice. Mas há também pessoas que não acham. 

Porque estou eu aqui a escrever? 

Porque ele quase me obrigou a vir para cá. Fê-lo porque achava que eu teria jeito e por razões “práticas”. Essas são as mais difíceis de resolver. A Arquivo é hoje para mim uma casa e uma espécie de família. 

É um privilégio poder estar todos os dias com esta equipa, neste espaço, a trabalhar com livros, ter amigos comigo a apoiarem-me neste projecto ambicioso. 

É um privilégio ter a sorte de poder manter um sonho. 

É uma honra ouvir que se gosta do que fazemos. 

Vale mais o coração ou a razão?  E o material ou o imaterial? Podemos trocar mais tarde ideias sobre este assunto? 

Porque se persiste? 

Porque se acredita nos livros, nos livreiros, nos escritores e nas pequenas revoluções que deles advêm. Todas juntas garantem a liberdade. Porque se acredita que um livro salva uma noite num dia de guerra. Porque se acredita que as livrarias alimentam a esperança e diminuem a solidão. 

Há pouco mais de um ano, um amigo contou-me, repetidamente, uma história sobre a importância de estar com pessoas. A Arquivo faz agora ainda mais sentido na minha vida. Daí as obras. O medo só desaparece quando temos alguém que nos ampara. Que sabemos que está sempre lá. Alguém que gosta connosco. O sonho só persiste assim. 

Este texto é dedicado a todas as livrarias independentes, e aos seus livreiros, que sobrevivem com dificuldade. Que não têm alguém com uma almofada para poderem sonhar ainda mais arrojado.  A todos os que entendem a importância das livrarias de rua na sua vida e no futuro das suas cidades. A todos os que lêem e que se encontram nos livros. 

A Arquivo tornou-se uma casa.
A Arquivo é uma casa para muita gente.
E, por isso, continua. 

Muito Obrigada

Xana Vieira