Uma Visão
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Descrição:
O poeta é a única espécie do mundo que se alimenta do que diz. Cada verso degustado enche-lhe as medidas com doçura. Porém, as palavras que realmente o saciam são as que ressoam no outro. Degustadas a meias. Em falta de escuta ativa, o poeta reage como o comum mortal reagiria a uma desidratação.
Este é um livro de palavras em metamorfose à procura de devorar a vossa inércia como quem beija na boca. Luís Perdigão, o poeta-pássaro, que começou a dançar com a poesia desde tenra idade, apropriou-se mais tarde da oralidade como ferramenta-corpo, parte de si, arma ciborgue. Pacemaker. Leia-se peace maker. Válvula mecânica dos seus poemas-coração.
Entenda-se ecdise como a mudança do exoesqueleto duro dos insetos de forma a permitir o seu crescimento. Note-se que escrevi “duro”. É o primeiro capítulo desta obra, a meu ver, o nascimento do som, parido pela língua do poeta. Uma luta pela libertação, um estrebuchar como quem se solta das amarras da forma. Notarão os leitores a dureza necessária do seu novo exoesqueleto nas páginas que lhe seguem. A resistência pede uma outra pujança e assim vamos, em crescendo, nos capítulos seguintes.
Chegarão ao último capítulo talvez exaustos, talvez purgados, talvez mais leves. Eu cheguei com a certeza de que metamorfose não é só um livro que toda a gente diz que leu. É um processo profundo e curandeiro, dentro do qual tudo parece turvo, que nos guia até águas cristalinas. Pássaro é fénix e voo alto. Decerto também imenso, dada a força com que nos leva consigo.
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