Clube de Leitura da Arquivo
Devido à falta de dados científicos na Pordata no que toca a campeonatos de antiguidade dos
clubes de leitura neste país, arriscamos dizer que o da Arquivo é o mais antigo de Portugal. E, com o espírito conterrâneo que nos caracteriza, afirmamos com todo o orgulho e sem um pingo de vergonha, que é também o maior e o melhor deles todos. Aguenta-te clube amigos da leitura de Sernancelhe! 11 anos de reuniões e 132 livros depois, Paulo Kellerman, elemento organizativo e capitão de equipa do clube desde o primeiro dia, traça-nos o retrato relato desta incrível jornada.

Sem ser com alguma idade, como te sentes por pertencer ao clube de leitura mais antigo de Portugal?
Com muita idade.
Os livros já estão em português ou vocês ainda mantêm o latim?
Os clubes foram precursores na abolição do latim, até houve um papa que quis seguir a tendência e fez uma grande reunião chamada concílio para acabar com o latim nas missas. Ou seja, os clubes já eram influencers quando ainda nem havia Internet.
O acordo ortográfico em vigor prejudica as vossas movimentações ofensivas?
Realmente, é um clube tão antigo que foi palco de discussões acesas sobre a implementação do acordo ortográfico. O próprio uso da expressão “foi palco” remete para uma certa antiguidade. Mas mais recentemente discute-se com maior afinco o tamanho da letra. As editoras andam claramente a poupar no papel. Diminui o tamanho da fonte, aumenta o preço de venda. É a economia, pá!
A sociedade portuguesa de psicologia apoia monetariamente as vossas reuniões?
Não. Mas dá para emitir uns vouchers, como se faz com os manuais escolares. Dão direito a uns descontos e assim.
O que é que se discute num clube de leitura? As vírgulas no ataque ou as atitudes defensivas das personagens?
O fraco uso de vírgulas é realmente um drama a que não se tem dado a devida atenção. Nem sequer se criou uma comissão parlamentar. Se calhar vamos propor um abaixo-assinado.
Há duas questões que sobressaltam qualquer homo sapiens: ananás na pizza, sim ou não? Para a qualidade de um escritor, viver ou ler? Tens alguma certeza sobre isto?
Ficou decidido em acta que os primeiros quinze anos do clube são destinados a discutir outra questão fracturante: quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Ainda faltam quatro anos disso. Depois, existem outros dilemas desafiantes a exigir a nossa atenção:. Por exemplo, vestir os cães com camisolas fofinhas: sim ou não? Mas sem querer fugir às questões apresentadas. Vários estudos comprovam que para escrever dá um certo jeito estar vivo. O mesmo se aplica em relação à prática da jardinagem ou ao lançamento do martelo, para citar duas práticas de lifestyle em ascensão; estando vivo, corre melhor. Mas partir do princípio que uma pessoa que vivencia muitas coisas e faz muitas cenas dá logo um escritor importante é mais ou menos o mesmo que acreditar que tendo um carro grande se é uma pessoa importante. Sobre o outro problema apresentado. Do que li na Internet, o ananás tem propriedades laxantes; o queijo, pelo contrário, tende a prender; pode-se deduzir que a intenção do inventor desta aberração seria encontrar um equilíbrio holístico qualquer, uma espécie de ponto de embraiagem alimentar.
Para este ano competitivo há alguma surpresa táctica que nos queiras revelar?
Apostamos sempre na táctica da humildade, evitando a todo o custo a seita que prescreve conselhos literários definitivos com a mesma certeza com que outras religiões escreveram mandamentos em tábuas.
Já há alguma proposta da Arábia para te transferires para o clube do Jesus?
Citando o próprio Jesus da Arábia: “Dentro das quatro linhas é que é o meu campo. Fora das quatro linhas, não sei jogar nele.”