Entrevista a Hélia Correia
Podemos, provavelmente condenados a um lugar aquém, imaginar a magia dos dias que Hélia Correia habita. O território onde “as pedras falam” e “seres extraordinários” se revelam. “É com esse mundo que eu me entendo, não é com o mundo racional, não é com o mundo dos adultos”, diz a autora que só escreve quando as frases lhe chegam como “duendes que saltam ao caminho”.
A voz de Hélia Correia, Prémio Camões 2015, escutou-se na Livraria Arquivo durante a sessão do projeto DST Vivos nas Livrarias, numa noite de quinta-feira, 18 de Janeiro, de 2024. Diante da plateia, regressa a palavras que em tempos recebeu e publicou, um regresso a que (quase) nunca se dedica. “Escrevo e acabou. Não tenho mais ligação com aquele texto, a não ser em casos muito raros”. O conto é o preliminar de uma conversa e com os leitores há autógrafos, abraços, até lágrimas. A experiência cultural “abre os caminhos de toda a bondade humana”, dirá a seguir, já no contexto de entrevista. “A maior parte dos meus amigos são crianças (…) Não têm prisões mentais. Esvoaçam, vão atrás das coisas”.
Depois de Um Bailarino na Batalha (2018, Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores) e Acidentes (2021, Prémio PEN Clube Português na categoria Poesia), está disponível Certas Raízes, coletânea de pequenas ficções, edição da Relógio d’Água.
Ler em voz alta, como leu na Livraria Arquivo, tem um significado especial? Não. É muito impessoal. É como se eu lesse o texto de outra pessoa. Porque escrevo e acabou. Não tenho mais ligação com aquele texto, a não ser em casos muito raros, como foi o Montedemo, em que se fez uma peça de teatro que acompanhei com muito deslumbramento.
Há, de alguma maneira, uma relação com o outro. As pessoas vêm para ouvir. Sim, mas não é uma relação comigo. Leio um texto meu como poderia ler o texto de outra pessoa. Não sinto que esteja a entregar-me a essa leitura.
Não escreve para partilhar nem a pensar em quem vai ler. Não escrevo para nada. Completamente o oposto das pessoas que escrevem para ficarem imortais, para não morrerem, para limparem a alma, para curarem as suas dores.
Nunca se força a escrever? Nunca. Forcei-me uma vez, porque o meu editor tinha uma máquina de escrever daquelas antigas e fiquei encantada. Disciplinadamente, escrevi um texto. E mostrei ao meu namorado, como costumo fazer. E ele disse: “Não. Está muito bem escrito, mas isto não é seu”.
Não se preocupa com hiatos entre uma obra e outra? Não, mas ressinto-me da ausência do meu imaginário. Preciso muito de estar noutro lado e de estar com palavras. E quando isso não acontece sinto que há qualquer coisa que não está completa.
Disse numa entrevista: “Dependo de qualquer coisa que vem ter comigo”. E noutra: “São uns duendes que me saltam ao caminho”. Mas julgo que não gosta de chamar a isto inspiração. Não me importo nada de lhe chamar inspiração. Sei que é uma noção romântica que hoje está muito mal vista, mas a inspiração é tomar o ar que está fora para dentro de nós. E, na verdade, há qualquer coisa que entra ou que já cá está dentro e que encontra a sua expressão. Tenho revelações de coisas que muito
mais tarde venho a encontrar, por exemplo, a personagem que me inspirou uma história, que eu não fazia a mínima ideia que ela existia. Isso dos duendes é porque o meu universo é um universo muito mágico, e de certo modo infantil, porque povoo o mundo de seres extraordinários e de poderes. As árvores falam e as pedras falam. E é com esse mundo que eu me entendo, não é com o mundo racional, não é com o mundo dos adultos.
Quando escreve, a palavra está a celebrar o entusiasmo e a relacionar-se com algo que é mais do reino natural? Não necessariamente quando escrevo. É quando vivo. O meu dia a dia está cheio dessas coisas, aliás, só tem essas coisas, só tem ficção, digamos. Não lido, mesmo, com o real e com as coisas da realidade. A palavra é qualquer coisa de mágico. Não sei o que é que acontece nos livros, o que é que acontece na escrita. Provavelmente, pertence ao mesmo enigma, à mesma relação com aquilo que não faz parte do quotidiano factual. A palavra literária não faz, cria. Há a palavra de que nos servimos, que é a palavra prática, e depois há outra palavra, que não tem nada a ver com esta, que é a palavra que nós servimos, a palavra literária. Pode ser a mesma, mas a palavra literária é a palavra que manda. Uma é serva, a outra é senhora.
Manda no autor. No autor e no leitor.
Porque que é que diz que a língua portuguesa está ameaçada de morte? A língua portuguesa, de Portugal, está a morrer porque está a ser completamente espezinhada, o território dela está a ser ocupado pelo inglês – que eu adoro, faço sempre questão de acrescentar, gosto muito, muito, muito, muito da literatura e da cultura inglesas. Toda a gente fala uma mistura e cada vez a percentagem de palavras inglesas é maior em cada frase. E, portanto, vai-se chegar ao momento em que desaparece o português, por ocupação, mas não é por maldade do ocupante, é por comprazimento da vítima.
O que é que desaparece com as palavras? É a cultura, a identidade, o modo de ser? Eu amo a língua portuguesa. Acho que um país é um acaso e já não estamos no tempo de nos dividirmos em secções, no mundo. Não sou patriota. A única coisa que me faria pegar em armas era a língua portuguesa. A perda de uma língua, qualquer, é uma catástrofe.
Em 2024, assinalam-se os 50 anos do 25 de Abril. Os valores da entreajuda, da solidariedade, do bem comum, também estão sob ameaça? Se calhar, é parecido, porque também são os perdedores que estão a trabalhar para a sua perda. Não há armas apontadas, ninguém tem de seguir norma nenhuma, ninguém tem de violentar-se a si mesmo. Estamos estragados de mimo, toda a gente está muito mimada. Toda a gente está muito egoísta porque o mimo torna as pessoas egoístas e não há partilha. Mas não gosto deste discurso, porque parece daqueles discursos todos moralistas. O mimo é a abundância. E eu tenho essa experiência, ao longo das gerações, porque a maior parte dos meus amigos são crianças, de ver como eles ficam encantados quando vão, por exemplo, para uma floresta comigo e só têm pauzinhos para brincar, porque toda a sua capacidade de imaginação, a sua capacidade motora, tudo aquilo é mobilizado. Dão esperança. Não têm prisões mentais. Esvoaçam, vão atrás das coisas.
O que é que a literatura nos pode dar em sociedades em que interagimos cada vez mais através de ecrãs? Acho que a literatura não existe para dar nada, as pessoas é que têm de ir à literatura para se maravilharem. Agora, há uma oportunidade de discriminar muito bem as coisas. As crianças lerem ou verem um filme é a mesma coisa. O que é preciso é discriminar o que é uma historinha para nos entreter – eu vejo imensos policiais, é a minha maneira de descansar. Outra coisa, é pegar num texto e entrar com ele num outro mundo feito por palavras. Basta uma criança ler um livro por ano, mas que seja a Odisseia, traduzida e adaptada pelo Frederico Lourenço. O deslumbramento da palavra, a revelação de uma outra coisa, que é a palavra, e mais, a possibilidade de individualizar cada leitura. Cada pessoa que lê um livro lê à sua maneira e recolhe dele uma preciosidade que é sua. E aí a individualidade enriquece-se e encontra-se com o texto.
A arte, e a capacidade de criar, a cultura, podem ajudar a superar o medo do outro, o medo da diferença? A cultura sim, em geral. Não do ponto de vista do criador, nem mesmo do consumidor, mas do ponto de vista do vivenciar uma experiência cultural, que é uma experiência que abre os caminhos de toda a bondade humana. Que anda muito desaparecida. Cada vez há mais ódio e medo. E há um espaço no nosso cérebro e no nosso corpo para o ódio e para o medo, hoje. Não creio que a cultura redima os nossos problemas. A cultura, ao que vejo, é uma coisa muito boa para unir pessoas, para se criarem grupos de pensamento, grupos de gosto. No momento em que estamos, não vai ser a cultura que vai resolver nada. Também não sei o que é que vai resolver. Uma coisa eu sei: que as pessoas têm de enfrentar as coisas. E o grande mal da esquerda foi idealizar o mundo e não olhar para o que estava a acontecer e para o que a maioria das pessoas estava a sentir e a pensar. Ando nos transportes públicos e sempre ouvi as pessoas falarem. E vi ao longo do tempo o mal estar que era reprimido, que era interiorizado, começar a sair. Mas o mal estar é o mesmo. Não se olhou, não se quis ver. E agora estamos com a realidade a votar e nem sequer podemos dizer que é um golpe, porque não é um golpe.