Por Tabela

Magazine Short Stories Por Tabela

Texto originalmente publicado em outubro de 2023.

Por António Gregório.

Era sempre num dia qualquer – a hora também aleatória – da primeira semana completa de cada mês que o casal de senhorios vinha recolher do lugar combinado – uma velha lata de biscoitos de manteiga insegura sobre a pilha de anos e anos de publicidades não endereçadas da mesinha do hall de entrada – a renda de cada um dos quartos, quatro rolos de notas atados a elásticos de escritório e deixados ali por outros tantos inquilinos mais ou menos trabalhadores, mais ou menos estudantes, o ritual um emplastro, digamos, de princípio ativo indolor – os montantes baixos e de acordo com a decadência do edifício – mas o excipiente de quinze minutos de pequena conversa que eu, estando por acaso em casa – e regra geral era limpinho apanharem-me em casa – tinha de lhes dar a custar-me muito, a custar-me muito, eu inclusive logo no domingo da primeira semana completa de cada mês, formigando um nervoso miudinho antecipador, a comer mal, a cagar mal, e mais dia menos dia ei-los então em manobras de estacionamento do Toyota Carina lá em baixo, o casal de senhorios subindo depois gaiato como o casal amigo que estivesse de passagem e resolvesse fazer uma visita, o hall num instante florido do nosso contentamento afetado, dois beijinhos à senhoria, um passou-bem ao senhorio – mantenho fresca a memória do azedo que manava deles, hálito de pouca pasta mais o suor dos demasiado-vestidos após seis lanços de escada – e ala a debitar cá-vamos-andandos, verdades gerais sobre o estado do tempo e a pavimentação das ruas enquanto a mão dele, autónoma, como uma entidade à parte, saltava do nosso passou-bem para a lata de biscoitos de manteiga, a palmar os rolos e a metê-los no bolso largo do casaco de camurça, vistoriando a dedo primeiro se eram de facto quatro e depois se o volume de cada um comportaria o valor ordinário, e debalde a subtileza do gesto – a nossa pequena conversa, nesse momento histérica tentando açambarcar as atenções – ruborizava um nadinha pela indelicadeza do comércio ante tanta informalidade amiga, tanta fraternidade conversadora – arrefeceu e diz que para a semana chove, falta passar não sei o quê dos esgotos e só depois pavimentam, etc., o rubor deles que era, por outro lado e ao mesmo tempo, a libido do somítico à beira de faturar – embora a culpa fosse daquela mão que fazia o que lhe dava na gana, a mão agora exigindo uma contagem exata das notas, que por ela podia ser logo ali à minha frente, mas o casal de senhorios com um resto de autoridade refreando-a, que houvesse decoro, a contagem exata só em privado e a mão então pronto, despachemos isto, largando a contragosto as notas e saltando do bolso para o passou-bem de despedida, a senhoria dando outra vez a lixa das faces aos beijinhos e eu muito cheio de asco, muito enojado Ai já vão? Ai já vão?, da janela do quarto, segundo uma falha mínima de cortina, vendo-os entrar no carro e, apesar do ruído do pó e dos reflexos no para-brisas, discernindo perfeitamente os dedos ensalivados do meu senhorio a folhear, a refolhar em confirmação, a carteira de boca aberta enfim a comer as notas todas e o carro a andar, a cumprir a rua e a desaparecer no cruzamento, a deixa para o início dos meus trabalhos de descompressão, que seriam no entanto lentos, o azedo dos humores deles teimando por ali, tendentes a assentar com a passagem das horas, é certo, mas qualquer corrente de ar a levantá-los como ao cotão dos cantos, um grosso cheiro humano que, sem um corpo manante visível, se tornava sinistro, e eu volta e meia nestas alturas especulando acerca do porquê da minha reação tão intensa, tão exagerada àqueles quinze minutos mensais, que não podia ser só a fealdade do casal e nem sou mal formado ao ponto de apoucar pessoas por minudências de cáries e sovacos – se toda a gente os tem, se toda a gente os tem, mais broca menos roll-on – vindo-me à memória a propósito o verso de uma composição de Duke Ellington, It don’t mean a thing if it ain’t got that swing – esqueçamos por ora o doo wah, doo wah, doo wah, doo wah –, de mim para mim, que o problema do meu casal de senhorios seria uma falta de swing extrema e que a falta de swing, de graça, quando extrema agride o espírito do desengraçado, longe de inócuo e ao invés levantando-se e expandindo-se ao redor como um veneno, e a minha noite do dia da vinda do casal de senhorios era acossada de pesadelos, a lata de biscoitos de manteiga, por exemplo, viva patrulhando o corredor, eu e a senhoria, outro exemplo, em beijinhos infinitos até às minhas faces em chaga da raspagem e a descoordenação da alternância nos encostar as bocas num chocho, num linguado, eu acordando aflito com a impressão doutra saliva a pedir-me água corrente e a lata patrulhadora a não me deixar sair do quarto, e se, após essa noite, os dias fluíam melhor desaguando inevitavelmente nalguma paz, era também inevitável que o extremo dessa paz encostasse entretanto ao início da angústia pela próxima vinda do casal de senhorios, porque ciclos são ciclos, e lá andava eu outra vez a comer mal, a cagar mal, a maldizer a sorte de trabalhar em casa, ressentido invejando a leveza com que cada um dos meus coinquilinos deixava o seu rolo de notas na lata de biscoitos de manteiga quando eu o fazia com o pesar de um animal a caminho do matadouro, sem instinto que me valesse, certa tarde de sofá a ver num documentário cães que davam conta do instante em que o dono, a quilómetros de distância, se preparava para o regresso a casa, Quem me dera, o casal de senhorios na sua casa e ele para ela ou ela para ele Vamos esta tarde buscar as rendas, e eu daí a nada a sair instintivo para um café longo, ainda que compensasse as horas inutilizadas ao serão, mas nem a um pré-aviso decente tinha direito, o senhorio muito cínico gabando-se de que, mesmo não sendo obrigado, fazia questão de tocar à campainha antes de abrir a porta, tocando porém cá em cima ao invés de lá em baixo e já de chave no canhão da fechadura, suponho que a ver se me apanhavam a meio de um coito, eu que seria incapaz de trazer quem quer que fosse, e muito menos amorosamente, a casa nessa primeira semana completa de cada mês, porque a miséria quer-se sem testemunhas, sequer aliás conseguindo falar do assunto aos meus coinquilinos – à única tentativa, num raro almoço conjunto por causa de um Tetrapak de cinco litros de vinho tinto com torneirinha que um deles recebeu de um cliente satisfeito, mal larguei que os senhorios fediam da boca, a lata de biscoitos de manteiga caiu de estrondo, pouco natural, do topo da pilha das publicidades não endereçadas e eu tive muito medo, muito medo –, e um dia, numa sequência toca-abre-e-entra particularmente veloz que me apanhou a mijar, o senhorio à rasca para mijar também leu na luz apagada da casa de banho a desocupação e abalroou-me enquanto eu sacudia, o meu programa de pequena conversa posto de emergência em marcha, fazendo-me estender-lhe a mão ao passou-bem, que ele olhou hesitante, mas, sem alternativa naquela encruzilhada social, apertou-ma – e foi como se, por tabela, me tivesse batido uma punheta.